Você está em:

Pandorga

Epílogo - Autismo na primeira pessoa (vinda de outro planeta)

Epílogo

(Theo Peeters)

Quando comecei a interessar-me pelo autismo, há cerca de trinta anos, li a literatura científica internacional. Nessa altura não era muito extensa, mas ensinou-me bastante. Entretanto, só descobri uma nova dimensão do autismo quando comecei a falar com os pais. Isso era autismo ‘’ao vivo’’. Agora, tantos anos mais tarde, tenho descobertas semelhantes quando encontro pessoas com autismo de alto funcionamento (ou pessoas com a Síndrome de Asperger ), particularmente quando posso ler as suas palavras – Donna Williams, Temple Grandin, Gunilla, Gerland... e agora Dominique Dumortier. Através dos livros destas pessoas passo a conhecer o autismo por dentro. Quando chegamos a conhecer bem alguém com autismo de alto funcionamento, experimentamos uma espécie de choque cultural, como quando duas pessoas de culturas diferentes se encontram. Esses são os momentos privilegiados, que ocorrem raramente na nossa vida. É como se sentíssemos intuitivamente que a nossa vida vai ser algo diferente daí para a frente, que vamos dar um salto na compreensão, e que daí em diante vamos ter de encarar o autismo de uma perspectiva diferente. Esta sensação experimentei quando conheci melhor Gunilla Gerland. Ela foi capaz de dar a si mesma e à sua vida um lugar neste mundo depois de ter lido livros de psicologia e de ter percebido que tinha autismo, um diagnóstico mais tarde confirmado pela comunidade médica. Apesar de ter vindo muito tarde, esta descoberta foi um grande alívio. Pode parecer improvável para muitos que alguém quisesse de fato um diagnóstico de autismo, mas as pessoas com autismo experimentam isso muitas vezes: elas desejam desesperadamente uma identidade própria. Dominique Dumortier também ficou felicíssima com seu diagnóstico. Graças ao diagnóstico, ela finalmente sabia por que é que era ‘’diferente’’. Este reconhecimento lembra-me uma entrevista que o neurologista Oliver Sachs fez com Temple Grandin. Ele perguntou-lhe se ela não gostaria de ser ‘’normal’’ e ela respondeu, ‘’se eu pudesse estalar os dedos e ser instantaneamente normal, não o faria, porque não seria eu própria. O autismo é parte de quem sou’’. Gunilla Gerland também deu a seguinte resposta quando lhe perguntaram se ela gostaria de ser ‘’normal’’: ‘’Talvez por uma semana, para saber como é, mas depois queria o meu autismo de volta.’’
 
O mesmo se aplica a Dominique que, como as pessoas citadas acima, recebeu o diagnóstico já adulta. Ela não encara o rótulo de autismo como uma condenação, mas como uma libertação. Para muitos, o diagnóstico de autismo é essencial para começarem o processo de integração. Depois de saberem que têm autismo, não precisam mais lutar para parecerem ‘’normais’’ ou fazer truques que aprenderam para ir ao encontro das expectativas da ‘’nossa cultura’’. Estou muito feliz que Dominique Dumortier tenha tido a coragem de contar a sua história. Ela descreve como tenta sobreviver entre ‘’a gente comum’’ – é uma aventura tremenda. Nós queremos ensinar as pessoas com autismo, queremos ajudá-las, mas também podemos aprender imensamente com elas. Sinto que é um desafio enorme para as próximas décadas ouvi-las com atenção e colaborar para uma verdadeira integração. Não o modelo ingênuo de integração que temos hoje, no qual nós nos vemos como o critério para qualquer qualidade de vida (afinal, a normalidade é o nosso padrão , não é?), mas, sim, um modelo no qual veremos que existem múltiplas formas de qualidade de vida que merecem todo o respeito. Claro está que as pessoas com autismo precisam de nós, porque de outro modo não conseguem aguentar a sociedade de hoje, mas nós também precisamos da sua ajuda para uma melhor compreensão do autismo, para desenvolvermos uma maneira diferente de estarmos juntos, com o respeito pela sua diferença. O livro de Dominique fala por si mesmo. Ela também nos conta da sua necessidade de ser autêntica, de aceitação, do seu desejo por uma coexistência harmoniosa com os outros, mesmo que ela vá sempre permanecer no seu planeta. Não é uma questão de má vontade, mas de incapacidade. Nós (que nos achamos normais) temos os mesmos problemas quando tentamos entender as mentes das pessoas com autismo. No entanto, temos feito progresso, lenta mas seguramente.  
 
(Texto extraído de Dominique DUMORTIER, Autismo na primeira pessoa (vinda de outro planeta, Kungsängen: Intermedia, 2006, p. 117-119, e adaptado ao português do Brasil.)

 

Acontece

O que acontece na Pandorga

Atendidos

Veja a galeria de fotos de atendidos pela Pandorga.

Cursos

Cursos da Pandorga

Formação

Clique e veja mais sobre nossa próxima formação.

Parceiros

Quem apóia a Pandorga

  • Petrobrás
  • Stihl
  • Moro Arquitetos
  • FLD
  • Parceiros voluntários
  • Faculdades EST
  • IMAMA
  • Fundação Maurício Sirostsky Sobrinho
  • Kinder
  • Banco de alimentos
  • Instituto HSBC Solidariedade