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Texto - Dominique Dumortier sobre listas, lugares e padrões fixos

Dominique Dumortier sobre Listas, lugares e padrões fixos

Eu uso muitas listas. Estou sempre a fazer listas e horários. Por exemplo, não consigo ir às compras sem uma lista. Recentemente, tivemos em evento de orientação nos escoteiros e tínhamos de levar comida; eu ia levar salada de atum. Fiz uma lista do que precisava e fui ao supermercado. Quando fui para a caixa com as compras, passei pela maionese. Sabia que já não tínhamos maionese e que eu precisava dela para a salada. Mas não pude comprar nenhuma, porque não estava na minha lista. Sabia que não tinha muito tempo, e que realmente precisava de maionese, mas tive de a deixar para trás. Deixei as compras todas em casa e voltei ao supermercado com uma nova lista para comprar maionese.

Tudo o que faço acontece num local específico. Todas as atividades têm o seu lugar próprio, mesmo em casa. Se eu não sigo essa regra fico transtornada. Dar a tudo o seu lugar habitual gera uma sensação de segurança e estrutura de que eu necessito desesperadamente. Se isso muda, a sensação de segurança e previsibilidade desaparece imediatamente. Eu dependo dela porque sei que terei dificuldades de outro modo. Os problemas não começam no momento da mudança, mas normalmente depois do acontecimento. Por exemplo, sinto que preciso comer à mesa, e sempre que como em frente da televisão ou no sofá, fico nervosa. As coisas, então, não são claras. Inevitavelmente, chegará o dia em que não vou conseguir comer, porque o ato de comer perdeu o seu local habitual. Na minha mente, já não haverá nenhum lugar apropriado para comer. Não conseguirei comer à mesa, porque o sentimento de contrariedade é demasiado intenso; não poderei comer no sofá, porque isso também gera contrariedade. Estes problemas são muito difíceis de resolver, e fazem-me sentir muito mal e completamente desesperada. Se isto acontece com vários aspectos ao mesmo tempo, a minha vida fica quase intolerável.

Para muitas coisas, eu tenho um padrão fixo que sigo rigidamente. Se o padrão se quebra, a vida torna-se muito difícil.

É quase como se eu não me conseguisse lembrar de como fazer coisas simples. Se estou tomando banho e sou interrompida pelo telefone, acho muito difícil continuar. Também depende muito da situação. Num cenário diferente, parece que nada é evidente. Noto isso claramente quando estou de férias e saio da minha rotina de banho. É quase como se eu me esquecesse da ordem em que faço estas coisas em casa. Em casa, não me esqueço de nada por causa do padrão fixo, mas num cenário diferente, isso requer muita reflexão.

Se eu tiver feito uma coisa de uma certa maneira algumas vezes, então tenho de continuar a fazê-la dessa maneira. Não há lugar para mudanças. Isto facilita a criação de rituais. Às vezes, incluo os outros nestes rituais. Se algo precisa ser feito na minha casa e o meu namorado quer ajudar, ele tem de fazer as coisas exatamente de acordo com o meu padrão. É claro, o prazer de ajudar cedo se evapora. Eu dou instruções detalhadas do que ele deve fazer, muitas vezes de maneira imprecisa. Aos meus olhos, ele faz tudo mal, o que leva muitas vezes a conflitos. Afinal, tentar seguir o meu padrão com exatidão não é fácil.

Para mim, mesmo as coisas mais banais têm um padrão fixo muito próprio. Quando como M&Ms, isso tem que ser feito segundo uma determinada ordem: uma certa cor depois da outra, e não pode ser diferente. Eu como os gomos de uma laranja numa sequência bem determinada, dos menores aos maiores. Às vezes, posso passar quinze minutos colocando-os nesta ordem, porque ela precisa ser exata. (...)

Um dia, eu estava planejando preparar um prato especial. Tinha feito esse plano de manhã. Mas, quando chegou a hora de jantar, fiquei com vontade de comer massa. Infelizmente, isso se mostrou impossível para mim, porque não era isso que eu tinha planejado. Mas também já não tinha vontade de comer o outro prato. (...) Entrei em pânico porque não sabia o que fazer para o jantar. Por isso, telefonei ao meu namorado e disse, “Por favor, me telefone e diga para eu comer massa no jantar, hoje à noite.” O meu namorado obedeceu. Tudo o que ele precisa fazer é repetir isso algumas vezes, e tudo se encaixa novamente. Acho isso horrível, porque, a estas alturas, estou usando o meu namorado. Quando tais situações acontecem, alguém tem de decidir por mim, e precisa fazê-lo de forma muito firme. (...) Telefono frequentemente ao meu namorado para lhe pedir soluções.

(Texto extraído de Dominique DUMORTIER, Autismo na primeira pessoa (vinda de outro planeta), Kungsängen: Intermedia, 2006, p. 74-76, e adaptado ao português do Brasil.)

Nota: para saber quem é Dominique Dumortier, consulte nossa publicação de 22 de março de 2018 clicando aqui.

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